campominado


aquela língua



encontrado num onibus
o pedaço de papel
dizia

numa parada na avenida
os carros passavam tão rápidos
que não se deram conta

uma garota achou vulgar
e se afastou
"eu não sou assim"

os marmanjos de pau duro
observam e riem-se
mas sua coragem se limita a olhar
e esperar

eu que não falo aquela língua
prefiro amar o novo
a chuva depois da secura do ar
prefiro o que não entendo
não poderia me tornar porta-voz
daquele atraso secular




Escrito por ev às 19h51
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o sangue derramado

foto érica zíngano

atropelei as palavras
no espaço entre os silêncios
uma fé no valor das palavras,
dos conceitos

novamente sem os headfones
dos condicionamentos-
palavras ditas, sexo feito-
vem a mente:
benvindo ao tempo presente
que contraria todo predito
que é maravilha e desatino-
ouvi dizer, o vi cair,
ante nossos olhos
laicos e cientificos
curral da razão
nós rezes da mídia,
o vi dizer, ouvi cair
esse sonho não é mais o mesmo
daqueles homens de antanho
hoje eu peço apenas
um dia da semana
sem covardia
e não existe.
existe uma massa
que se ergue e que vêm
reclamar do que lhes foi subtraído
sem saber,
existem uns que conhecem os caminhos
e sabem apenas de dinheiro e de poder
outros são os lutadores das verdades
velas em punho
a chama que não se pode apagar
¿estará inda lá
permanente e pura como a esperança?
¿fará surgir
os ventos e os amores
como a primavera?
¿será que esta chuva
que está a cair,
poderá um dia lavar
o sangue derramado
sobre a terra?

Escrito por ev às 22h06
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falência múltipla



foi enterrado hoje
falência múltipla dos órgãos
sete tiros na cabeça
outros quatro no abdomen

a família inconsolável
os vizinhos protestaram
fecharam a favela
bloquearam a passarela

a polícia nega o crime
tiroteio de rotina
três suspeitos abordados
um corpo sobrou no asfalto

quem ainda tem alegria de viver
ou mora longe ou finge que não vê
quem ainda não sabe nada
ainda pode respirar
o ar da desgraça
sem detectar o cheiro
que empesteia a cidade




Escrito por ev às 19h58
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maraqui, marajá



respirei-a
em seu ar devoto
engolido veio
junto aos restos
de tudo consumido
aquela noite
uma semente
que agora brota no meu peito.

era noite prá guardar
nos altos rangos da memória
para segurar
quando a jangada em pleno mar
naufragar,
maraqui, marajá.

alguns vêem nisso uma tristeza impossível
e é.
mas também não vêem o que não podem ver
um alegria travestida de memória
flutuando em minha taça de café
cheiro de café

ir embora seria fácil
mas dessa vez, ela pegou minha mão
e me disse nada
sentamos mudos por um tempo.

Escrito por ev às 22h44
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o presente incômodo



ela me perguntou se eu não
e eu meio que aceitei
na verdade não disse nada
que em certos casos é como sim
mas não aguentei
e volto atrás:
errei.

voltasse com algo sob os braços
carregar o seu pacote
que não pude recusar
mais do que se pode carregar
lógico seria
deixar tudo para trás:
errei.

e nem quis ver o que continha
a vergonha alheia que trazia
na vida tive mais do que eu queria
mais do que merecia
e não preciso de mais:
errei.


por isso não levo a sério
o poder do pensamento
no meu caso seria admitir
que vivo em pleno contra-senso
já basta carregar meu próprio peso:
errei?


Escrito por ev às 00h22
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os piores nomes para gatos

seguindo a sugestão da Natércia (vide lista de blogs ao lado)
resolvi instituir a enquete piores nomes para gatos.
vocês podem dar a sugestão nos comentários.
eu vou sugerir alguns por aqui que foram reprovados

Pornoco (motivo meio pornô, meio porco)

Leopoldo, vulgo Léo (já tinha um léo na vizinhança)

Pelotudo (um gato chamado pelotudo?)

Coiso (sei lá, impessoal demais)

Gatinho (idem)

Rex, Totó e quaisquer outros nomes típicos de cahorros.

Noé (um gato chamado noé?)


mas você também pode dar a sua sugestão!
é só entrar nos comentários e responder:
qual o pior nome que um gato pode ter?
é de graça! não deixe de participar.


Escrito por ev às 21h46
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terra incognita



se pergunta "estamos bem?"
penso em quanta carga
a palavra aguenta
esse camelo que atravessa o ar
seco de matéria
úmido de desejo

se digo te quero
é quase como dizer te amo
é quase como dizer nada
te quero.

se fala até mais
o que se esconde por detrás?
de cada palavra
de cada livro
de cada estante
da sua biblioteca?

Escrito por ev às 18h53
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onde não está



me cansa
negar o amor ao estranho
ter de usar a força
e carpir o mato invasor
com a foice da indiferença.
me cansa

ver sua boca de chiclete
em definição de tela
de cyber chines
em cidade sulina
não sinto seu cheiro
não vejo seu rosto

me cansa
o encaixe bidimensional
a excitação através do
meio digital.

me cansa ver seus olhos
do outro lado
e o silêncio pelas entrelinhas
telefônicas

ainda busco o frescor do primeiro dia
e sei onde ele nao está.




Escrito por ev às 01h44
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me fazem correr



não adianta:
já passaram por mim todos os cheiros de mulheres
umas me ensinaram a andar, outras me fizeram correr
quando pensava em parar

todos odores e camas
e panos de diferentes cores
em algumas deitei, de outras tive de fugir
quando era hora de deitar

quem acredita no sonho de um dia tranquilo
onde tudo é certo e verdadeiro?
quem acredita que nunca vai partir?

sem dúvidas só estive no dia que nasci
desde então preciso correr
preciso correr.


Escrito por ev às 18h51
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faça uma imagem de mim



uma palavra e já podemos começar
faça uma imagem de mim/faça de mim uma imagem
com meus olhos nunca pude ver
apenas afastar o que mais amo
e isso sempre soube.

uma palavra e podemos conversar
tire tudo o que construí sobre mim
como roupas, como um banho frio
diga e desnude, limpe a maquiagem
o que nunca soube

diga tudo sobre mim
eu direi tudo o que sei
sobre você

Escrito por ev às 11h30
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leia, mira!


gravura de Leya Mira roubada do blog do Fabio Morais ( moraisfabio.blogspot.com )

nós lá fora e chovia
como sempre lá dentro
"não pode", não podia
leia, mira.

pela rua caminhavam
um catando lata "tá vazia?"
um padre descalço, os pés rachados
mira, mira!

entre aqueles que não podem esperar
pelos que ambicionam brincar de chefezinho
na cadeira do patrão
leia, mira.

a chuva lava a rua
e se torna uma água preta
nas paredes, nas calçadas
tudo está escrito
mira, leia.

Escrito por ev às 14h00
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flutuando no vazio



som.rebate.espaço
minhas palavras são o eco do original
formas ritmos cores
correndo na marginal

tudo o que ouvimos
que vemos ou sentimos
um caldo de cosmos e sentido

flutuando no vazio

repassando o fio
que me leva a séculos de história
criada
traduzida e inventada
essa que construímos
na intimidade da nossa compreensão

mentiras
flutuando no vazio
e tantos querem acreditar

durmo e levanto
a música martelando:
pa pap pa pap pappapa
pa-pa pa-pa pa-pa pa-pa
a alma em colapso, as noites em branco

e continua e continua
ao longo do longo dia

de trabalho
de massacre
se não fosse você
não teria motivos para fazer.

mas ele está ali-
um ruído invisível
por trás de todas as coisas


Escrito por ev às 22h48
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nos olhos dela


a sua voz se confundia com a da natureza
era bicho e era rio ao mesmo tempo
e era nada que costumava ouvir.
tempo. respiração.
seus cabelos eram os troncos
de uma árvore pequenina
de pano
que brotava da sua cabeça
lambuzei a mão em seu buraco molhado
e provei
animal do meu prazer.
era mel era sumo
era terra-fêmea pronta para o plantio
eu vi a vida e a morte nos olhos dela

Escrito por ev às 21h40
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se ainda




era de se prever
o fracasso
depois de inchada a barriga
-esperança em vão-
a descoberta:
cartas marcadas desde o início.

nem lamento,
de tudo, peguei minha parte
não é fazer papel de otário,
é acreditar mesmo sabendo
que a maldade nos cerca.

agora é voltar prá casa
se ainda existir uma
se o caminho
ainda nos levar.

*****************************

gostava de ficar invisivel
a olho nú
a menina de tantos anos
fotográfica
nunca mais existiu
além daquele momento.
eu queria nunca ter existido
sabendo,
mas se não é para isso que existimos
não deve ser para outra coisa.

Escrito por ev às 14h43
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o massacre das bananeiras



watchingamerica.com/eltiempo000037.shtml

a Carol acaba de me falar sobre como o mundo é violento e da terrível sina de ter de se acostumar,
quando eu vinha aqui justamente para falar sobre um caso que me chamou muito a atenção e que passou
meio batido pela mídia daqui (porque tudo deve passar e quanto mais rápido melhor), que foi a
descoberta de um esquema de corrupção envolvendo a companhia norte americana "chiquita banana" na Colômbia.
A companhia foi acusada e julgada culpada da distribuição de dinheiro e armas para as FARC e ELN
na Colômbia e foi multada em 25 milhões de dólares, em março desse ano. Apesar de não ter sido encontrado evidência
do envolvimento da companhia no tráfico de drogas, a ligação foi tão obvia que a multa não apenas
foi aplicada, como foi criticada por ser considerada baixa. O que foi encontrado foram diversos
carregamentos de armas trazidas a Colômbia com a desculpa de proteção do pessoal da companhia.
Algo suficiente para municiar um pequeno exército, segundo algumas fontes. Apenas em munição de
fuzis parace que eram 4 milhões de cartuchos.Impressiona? Pois então veja o histórico dessa companhia.
A Chiquita Banana é a sucessora da United Fruit Company, com sede em Ohio, companhia dedicada ao
comércio da fruta desde fins do século XIX, quando se instalou em Ciénaga na região de Magdalena,
na costa do Caribe. Essa foi a multinacional que explorava os trabalhadores e que em 1928 incomodada
com a exigencia dos direitos trabalhistas na região (que como empresa internacional não obedecia
sequer as parcas exigências locais), pressionou o governo local para acabar com uma greve que se
arrastou por cerca de um mês. Resultado: depois de conclamar a população para uma suposta negociação,
o exército colombiano massacrou os trabalhadores causando um número de mortos até hoje posto em questão.
As fontes oficiais declararam 50 mortos, fontes extra oficiais elevaram esse número a 1.000, 2.000
chegando até 3.000 mortos na praça em Cieenaga. Os corpos teriam sido empilhados nos trens usados para
transportar as bananas e jogados no mar. Esse episódio negro da história da Colômbia foi chamado de
Massacre das Bananeiras e é tido por alguns como o capítulo inicial de uma guerra que se extende até hoje.







Escrito por ev às 00h46
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