minha casa sem paredes

procuro minha casa onde não existem cercas nem paredes nem muros nem gaiolas estradas ou cimento
no mar afundarei nem medo nem boias na grama com as meninas e os meninos nas árvores nos balanços
voarei pelos caminhos no mato
sem culpas ou verdades ali, de onde se vê toda a cidade minha casa sem paredes, minha vida sem gaiolas
e se me perguntarem o que deixarei para o futuro responderei: nada. é este o momento que me apressa e só por ele respondo
Escrito por ev às 11h25
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o tempo da promessa

willian hammershøi quando era jovem e bela andava pelos campos respirava os lagos e flores conhecia as trilhas e as florestas sabia o cheiro da chuva e da terra quando era jovem e bela
hoje sentada no banco do trem a vida é mais dura e fria
por que foi acontecer? havia algo a fazer?
quando era jovem e bela e os olhos se voltavam para ela sentia o tempo flutuar no ar sabia que podia esperar
hoje na estação nem se nota,
se havia algo a fazer já é tarde
hoje não há floresta e aquele vento já não sopra mais queria ter de volta o tempo o tempo da promessa
Escrito por ev às 15h51
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quando eu chegar

... e quando eu chegar não deixe a porta fechada quando eu chegar no meio da noite escura deixe a luz acesa quando eu chegar
com a urgência da chegada com o cansaço da viagem abra a porta pegue minha bagagem não me deixe esperar
quando eu chegar com as mãos molhadas o rosto machucado pelo tempo quando eu chegar minha bandeira já manchada de poeira os caminhos percorridos para trás quando eu chegar
como um estrangeiro me acolha com todo seu amor
Escrito por ev às 00h47
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mundo mundo

mundo mundo velho mundo quando eu deixar de lamentar você já pode me levar
um que nasce outro morre um que come e outro chora mundo, mundo, irmão mundo
quando o caminho que me leva já não for mais aquele de anos atrás
quando o grito não sair quando a dor não me tocar
mundo mundo meu pai mundo
quando não quiser seu peito quando recusar seu leito mundo mundo
mamãe mundo pode me levar
Escrito por ev às 00h40
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fiz minha parte

leva uma vida inteira jogar pela janela você lembra? fiz minha parte e não me sinto nada bem
Escrito por ev às 01h41
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fluelort

um pedaço de sujeira pendurada no teto até a merda da mosca deve estar no lugar certo um erro de cálculo que nunca antes foi notado melhor deixar de lado nunca se sabe se pensa que tenho lugar no mundo talvez esteja enganado sou carteira perdida sou carimbo vermelho em papel errado
Escrito por ev às 05h56
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no meio da noite

agarre minha mão e não me deixe assim no meio da noite me olhe nos olhos agarre minha mão e não me deixe sair no meio da noite pela rua gelada o frio no rosto o coração vazio o medo do amor entre nossas faces perambula distraído em nossos olhares eu já não quero me perder no invisível no meio da noite agarre minha mão não me deixe sozinho no meio da noite
Escrito por ev às 19h17
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morrer gritando

foto Guaraci Gabriel
de você conheço as estórias tanta estória de dor e alegria de filhos e afilhados eu não tenho nada disso.
de você conheço as viagens tanta estrada tanto tédio em rodoviária noites de mosquito cheiro de churrasco empoeirado
assim levava a vida achando graça mas dentro sabe o quanto doía mais perto, mais parte mais tarde, mais vale mais-valia
e se a dor endurece com os anos aprendeu a não ter pena dos ricos
e tomar para si cada injustiça do caminho se ainda é capaz de sentir indignação sinal de que ainda vive e pretende morrer gritando.
Escrito por ev às 12h08
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se me queres oráculo, deixa estar: "o amor se encontra em qualquer lugar" se me queres criança vou estar pensamento longe não sei onde procurar se existe um meio de cavalgar léguas de ar em um cavalo de vento galopar na infância dos sentimentos ferroar a carne tenra dos acontecimentos abraçar tudo que se encontra em movimento somos crianças no mundo nada devemos temer.
Escrito por ev às 16h55
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este laço

enquanto você escreve em algum bar
esperando a cerveja acabar
olhares dos homens ao redor
você sabe o que eles querem
mas hoje você não quer dar
hoje não.
para quem não sabe
não tem diferença
o que você é e o que faz
por isso o laço
prefiro mantê-lo longe
lembrar
nunca neste local
não agora
enquanto tudo é paisagem
posso descansar e fingir que não percebo
olho para o outro lado
sinto sua raiva,
tenho as portas abertas para ela
quando quiser
entrar e sair
que fique claro
detesto os homens e seus brinquedos
as mulheres e suas manias
os diálogos vazios
que nunca serviram para dizer
apenas para estar
e suportar
este laço
prefiro mantê-lo longe
de você quero apenas
a suavidade dos momentos férteis
Escrito por ev às 16h21
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hora de voltar prá casa

menina-periferia
me pega pelo braço
me leva de olhos vendados
me senta no chão
nunca antes ali
passou aquela gente
andando na terra
na beira da represa
chamando todo mundo
entrar na brincadeira
a noite caía
o vento soprava
em volta da fogueira
a turma aninhada
no fim só restou
a luz alaranjada
nem gente nem fogo
jogo ou brincadeira
hora de voltar prá casa
hora de voltar prá casa.
Escrito por ev às 11h01
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a gaiola
 meu tesouro ainda levará muito tempo até ser desenterrado muito mais trevas hão de assombrar este lugar as trombetas soam e o barulho é surdo o barulho é surdo no mundo li sua carta e nunca saberei te responder porque bateria na sua porta outra vez? porque bateste a minha? eu vou ler e vou dizer existe uma gravidade ali a qual não saberia responder exceto por o momento que me importa é agora e os outros pouco podem me ajudar e o que nós vivemos pode ser mais ou menos o que outro alguém viveu mas que importa se a experiência é uma só?
você cantando a vida com ânimo de passarinho repete meu nome com voz fina parpadeia essa coisa tão fugaz essa coisinha que morre fica dura e morre na gaiola
eu nunca farei nada para machucar você por isso as vezes calo e esse silêncio é um tipo de amor ver isso refletido nos olhos de alguém mesmo que seja um equívoco ...
Escrito por ev às 01h25
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paciência

não tenho paciência prá noticiário de televisão tiroteio de polícia e ladrão um sequestro uma morte traficante procurado inocente desarmado quem vai saber?
sinto muito mas não tenho paciência que sentado numa cadeira alguns poucos manipulam o destino de milhões que nunca vão saber mas vão sentir.
muito pouca paciência prá analistas de crises de ocasião futurólogos, especialistas rapinantes de plantão gente muito importante para ser ouvida gente importante para dar opinião
estou sozinho os vizinhos esmurram paredes não posso abrir a porta tenho de fingir que não ouço
Escrito por ev às 23h16
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divididos
 Shirley Temple por Salvador Dali
desagregado sem a fina sintonia como aguenta?
tufo de cabelo enfiado na garganta a pele uma crosta que secreta purulência os nervos exigidos no limite da resposta
não pode mais
desagregado sem a força necessária prá lutar
ainda tenta caminhar pela beira da avenida mas não dá mais ao seu lado caminha uma horda de animais
que não sou eu que somos nós
divididos pela fé pelo amor pela verdade
enquanto andamos em eixos todos parecemos naturais o mundo muda, mas os homens continuam iguais
Escrito por ev às 12h28
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em busca de um abrigo

cabeça cortada em cima de uma tabua navega pelo oceano em busca de um abrigo
o corpo cansado os braços amarrados andando pela corda bamba não pode ficar parado
boneco de arame voando sobre o abismo nem pensa no que pode acontecer se cai no precipício
Escrito por ev às 11h43
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