campominado


pedras e muros

(para K)

mesmo que a terra se divida

depois da minha morte

que meus braços, meus membros

sejam enterrados no campo

ali construirei meu palácio

com as rosas de ouro

que você lançou

ali o Amor é impera

mais além de pedras e muros

quando se ama

se é escravo e soberano



Escrito por ev às 09h50
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livre de mim

 

antes vivia com uma faca imaginária

encravada na barriga

precisei que ela cruzasse meu corpo

numa cama de hospital

para me ver livre

 

as vezes penso em minha morte

atropelado, baleado, acidentado

na esperança que nada venha depois

e eu possa enfim me ver livre


minha cabeça dói

roda em mil direções

só consigo repousar

quando paro de pensar

no nada me vejo livre

me vejo livre de mim


meu corpo está em desarranjo

meu coração em desconcerto

não sei para onde ir

quando ando ao acaso

quando sou esquecido

me vejo livre

me vejo livre de mim



Escrito por ev às 00h23
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sonhos

sonhos

sonhos que vêm com o vento

um tempo futuro presente

uma outra ausência

uma casa de

sonhos

imaginações, paranóia

de tudo que nunca se mostra

e dentro disso

um caroço de vida

átimo da história

estalido e pim:

uma imagem na memória

ilha tão rápida

de café da manhã

eu ontem sonhei com um pássaro

nem me lembro.


e é cruzando a avenida

ao meio dia

quando estala o som

surdo de uma lembrança

aquele instante

naquele instante,

ele se lembra.

 



Escrito por ev às 19h25
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a guerra


para você

miniaturista

liliputiana

que faz chover flores

pelos campos


você

que com a mente

projeta novas danças

numa outra dimensão da esfera


para você eu dedico a minha voz

no verão de nossos dias

vimos explodir a guerra:


"era a história de um povo que suportou a opressão e lutou até o fim.

seis anos após ter sido fundada, já era a segunda maior cidade da província perdendo apenas para a capital.

e foi na capital que foi fomentada a intriga e a malícia contra eles.

depois que algumas "ocorrências" - e isso incluía as eventuais desavenças com habitantes das cidades vizinhas - foram resolvidas com extrema violência pelas polícias locais que executaram jovens e os deixaram atirados em alguma fronteira, viram nascer grupos armados ou pequenas milícias.

quando a primeira invasão do exército aconteceu, a população já estava armada e treinada em emboscadas guerrilheiras. essa inesperada ajuda de parte dessas milícias, fizeram o exército sofrer uma inapelável derrota. a segunda invasão, embora melhor estruturada, armada e mais numerosa, não pode obter melhor sucesso.

a terceira invasão do exercito foi composta por cinco divisões de oito federações diferentes com ordem de não deixar nada de pé. depois de três anos lutando, os sertanejos estavam exauridos. depois de cinco semanas de batalhas e bombardeios, o centro da cidade transformou-se num labirinto de ruínas.

a tudo isso soma-se a morte de seu maior líder, aparentemente de diarréia.

partes da cidade foram invadidas e as execuções em massa foram frequentes nesse momento.

também acirrou-se a guerrilha sertaneja, atacando principalmente a retaguarda e foi responsável por quase a totalidade de baixas do lado do exército.

tinham consciencia da derrota estampada em seus rostos sujos e famintos, e incerto era o paradeiro dos seus líderes. entrincheirados e famintos, muito depois de comidos todos os cães, ainda assim lutavam através de escaramuças, e de noite incendiavam as tendas dos soldados.

depois de muita negociação entre as duas parte, estabeleceu-se de soltar as mulheres e as crianças.

os que ficaram conseguiram resistir por mais alguns dias e no sábado dois garotos desarmados e desnutridos saem de mãos dadas segurando um farrapo fazendo as vezes de bandeira branca.

era o fim da guerra."

 



Escrito por ev às 00h48
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nas minhas mãos

um tesouro nas mãos

brilhando, inatingível

nas minhas mãos


carregar não posso

impossuível, intangível

nas minhas mãos


valeria pouco menos que areia

em alguns minutos


valeria a vida inteira na memória

cruzar o mundo e ver de perto

deixá-lo onde encontrei

 

 



Escrito por ev às 17h15
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caminhar

na estrada a chuva

o caminho incerto

nenhuma idéia

nenhuma sombra


caminhar, caminhar

caminhar, caminhar


na estrada a chuva

a roupa encharcada

as gotas

d'agua

percorrem

os mais escondidos

buracos do corpo


caminhar, caminhar

caminhar


na estrada a chuva

nenhum refúgio

as pancadas de seis homens raivosos

na cabeça


caminhar, caminhar

caminhar


na estrada a chuva

os ossos gelados

o vento a água

nenhum refúgio


brincando com a água

dentro dos sapatos

chupando a água das roupas

mesmo que não sirva de nada


caminhar, caminhar


contra o vento

contra a água dos carros

contra a chuva

nenhum abrigo


caminhar caminhar

caminhar caminhar


e quando chegar

muito depois de chegar

o desespero tardio

o choro contido

o medo esquecido

na estrada



Escrito por ev às 15h53
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oferenda

me dê um e eu te devolvo

mas não o que você quer:

a humanidade não precisa tanto de livros

quanto de ler

e viveu muito bem antes de aprender

te peço muitos e me dás um:

a poesia se nega ao estrangeiro

nós índios não podemos saber


dei meu corpo em oferenda

um churrasco entre amigos

consumido pelos meus

anotado em papelzinho

guardado pela tribo


já encontrei o diabo e o temi

mas vi que não precisava

cada um carrega sua dor

e ele tem as suas também.


ela preferiu sofrer a amar

e não ganhou nada assim

viu-se dominada por outra

que lhe vive dentro

e alerta do risco


ela preferiu sofrer a amar

sonhou do sonho alheio

adoeceu

do sentimento

 

 

 

 



Escrito por ev às 11h46
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minha casa sem paredes

procuro minha casa

onde não existem

cercas nem paredes

nem muros nem gaiolas

estradas ou cimento


no mar afundarei

nem medo nem boias

na grama

com as meninas e os meninos

nas árvores nos balanços


voarei

pelos caminhos no mato

sem culpas ou verdades

ali, de onde se vê toda a cidade

minha casa sem paredes,

minha vida sem gaiolas


e se me perguntarem o que deixarei para o futuro

responderei: nada.

é este o momento que me apressa

e só por ele respondo

 



Escrito por ev às 11h25
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o tempo da promessa

willian hammershøi

 

quando era jovem e bela

andava pelos campos

respirava os lagos e flores

conhecia as trilhas e as florestas

sabia o cheiro da chuva e da terra

quando era jovem e bela


hoje sentada no banco do trem

a vida é mais dura e fria

por que foi acontecer?

havia algo a fazer?


quando era jovem e bela

e os olhos se voltavam para ela

sentia o tempo flutuar no ar

sabia que podia esperar


hoje na estação

nem se nota,

se havia algo a fazer

já é tarde


hoje não há floresta

e aquele vento já não sopra mais

queria ter de volta o tempo

o tempo da promessa



Escrito por ev às 15h51
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quando eu chegar

... e quando eu chegar

não deixe a porta fechada

quando eu chegar

no meio da noite escura

deixe a luz acesa

quando eu chegar


com a urgência da chegada

com o cansaço da viagem

abra a porta

pegue minha bagagem

não me deixe esperar



quando eu chegar

com as mãos molhadas

o rosto machucado pelo tempo

quando eu chegar

minha bandeira já manchada de poeira

os caminhos percorridos para trás

quando eu chegar

como um estrangeiro

me acolha com todo seu amor



Escrito por ev às 00h47
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mundo mundo

 

mundo mundo

velho mundo

quando eu deixar de lamentar

você já pode me levar


um que nasce outro morre

um que come e outro chora

mundo, mundo,

irmão mundo


quando o caminho que me leva

já não for mais

aquele de anos atrás


quando o grito não sair

quando a dor não me tocar

mundo mundo

meu pai mundo


quando não quiser seu peito

quando recusar seu leito

mundo mundo

mamãe mundo

pode me levar



Escrito por ev às 00h40
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fiz minha parte

leva uma vida inteira

jogar pela janela

você lembra?

 

fiz minha parte

e não me sinto nada bem

 



Escrito por ev às 01h41
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fluelort

 

um pedaço de sujeira

pendurada no teto

até a merda da mosca

deve estar no lugar certo

 

um erro de cálculo

que nunca antes foi notado

melhor deixar de lado

nunca se sabe

 

se pensa que tenho lugar

no mundo talvez

esteja enganado

 

sou carteira perdida

sou carimbo vermelho

em papel errado



Escrito por ev às 05h56
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no meio da noite

 

agarre minha mão

e não me deixe assim

no meio da noite

 

me olhe nos olhos

agarre minha mão

e não me deixe sair

 

no meio da noite

pela rua gelada

o frio no rosto

o coração vazio

 

o medo do amor

entre nossas faces

perambula distraído

em nossos olhares

 

eu já não quero

me perder no invisível

no meio da noite

agarre minha mão

não me deixe sozinho

no meio da noite

 

 

 



Escrito por ev às 19h17
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morrer gritando

foto Guaraci Gabriel


de você conheço as estórias

tanta estória

de dor e alegria

de filhos e afilhados

eu não tenho nada disso.


de você conheço as viagens

tanta estrada

tanto tédio em rodoviária

noites de mosquito

cheiro de churrasco

empoeirado


assim levava a vida

achando graça

mas dentro sabe o quanto doía

mais perto, mais parte

mais tarde, mais vale

mais-valia


e se a dor endurece

com os anos aprendeu a não ter pena

dos ricos

e tomar para si

cada injustiça do caminho

se ainda é capaz de sentir indignação

sinal de que ainda vive

e pretende morrer gritando.



Escrito por ev às 12h08
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